A Bíblia Pode Ser Aceita de Maneira Literal?
de Lenny Flank
©1995
A totalidade dos princípios
do fundamentalismo e criacionismo científico, como os próprios criacionistas
reconhecem, é a crença de que a descrição da criação no Gênesis é literalmente
verdadeira, e é uma descrição histórica e correta do que aconteceu. E, como
também temos visto, este princípio é parte de uma fé maior de que toda a Bíblia
é literalmente verdadeira em tudo o que diz, completamente livre de erros ou
contradições.
Os
fundamentalistas devem começar primeiro definindo a respeito de qual Bíblia
estão falando. Em inglês, por exemplo, além da popular e conhecida versão do
Rei James, temos também a Bíblia Scofield, a Bíblia Anchor, a Bíblia Standard
Revisada, e várias outras. Poderia ser mais fácil aceitar uma Bíblia literal se
todas estas versões dissessem o mesmo, mas não dizem. A versão do Rei James,
por exemplo, menciona "unicórnios" em várias partes da obra (*1):
"Deus os tirou do
Egito; Tinha a força de um unicórnio." (Números
23:22)
"God brought them out of Egypt; he hath as it were
the strength of an unicorn." (Numbers 23:22)
"Deus
os retirou do Egito; E lhes deu o vigor do búfalo." (Números 23:22)
"O unicórnio estará
disposto a servir a ti, ou ser fiel a teu estábulo?"(Jó 39:9)
"Will the unicorn be willing to serve thee, or
abide by thy crib?" (Job 39:9)
"Quererá servir-te o boi selvagem, ou
quererá passar a noite em teu estábulo?" (Jó 39:9)
"Sua glória é como o
primogênito de seu touro; e seus chifres são como os chifres de
unicórnios." (Deuteronômio 33:17)
"His glory is like the firstlings of his bullock;
and his horns are like the horns of unicorns." (Deuteronomy 33:17)
"Glória
a este touro primogênito! São chifres de búfalo os seus chifres; (...)"
(Deuteronômio 33:17)
"Ele
também os fez saltar como um bezerro; Líbano e Sarion* como um jovem
unicórnio" (Salmos 29:6)
"He maketh them also to skip like a calf; Lebanon
and Sirion like a young unicorn." (Psalm 29:6)
"Faz saltar o Líbano como um novilho; E o
Sarion(*2)
como um búfalo novo." [Salmos 28 (Hebr.29):6]
Os unicórnios, entretanto,
não existem e jamais existiram. Os versos originais provavelmente se referiam
ao auroque ou boi selvagem quando citaram "chifres" e
"força", animal que agora está extinto mas que viveu no Oriente Médio
na época
Talvez o exemplo mais
famoso de má tradução é a asserção bíblica de que Cristo "nasceu de uma
virgem". A palavra hebraica original aqui é almah, que
simplesmente significa "mulher jovem". A palavra hebraica que se
refere especificamente a virgem é betulah, mas esta palavra não é
utilizada nesse trecho. Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, a palavra
hebraica almah foi traduzida para a grega parthenos,
que significa "virgem". (Spong, 1991, pág. 16) Desse modo, a asserção
bíblica original foi de que Cristo "nasceu de uma jovem mulher", e
esta é realmente a maneira como foi traduzida em algumas versões da Bíblia.
Um verso que nunca é
traduzido corretamente em qualquer versão da Bíblia é justamente o primeiro,
Gênesis 1:1, "No princípio, Deus criou os céus e a terra." A palavra
hebraica para "Deus" aqui é "elohim", que na verdade é o
plural da palavra, e literalmente significa "deuses". Portanto, uma
tradução mais precisa desta passagem seria "No princípio, os deuses
criaram os céus e a terra." Este verso é somente uma das indicações de que
a religião monoteísta introduzida pela Bíblia nem sempre foi monoteísta. Alguns
outros versos bíblicos implicam que havia, ou costumava haver, mais de um deus.
Gênesis 1:26 diz, "E Deus disse, Façamos o homem à nossa
imagem, à nossa semelhança." Em Gênesis 3:22, Deus é retratado como
dizendo, "Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do
bem e do mal." Durante a descrição da Torre de Babel, Deus é descrito como
dizendo, "Vamos, desçamos e aqui confundamos suas línguas." (Gênesis
11:7) ["Go to, let us go down, and here confound their language."] ["Vamos: desçamos
para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao
outro."]
Também há indicações dentro
da Bíblia que, tal como nas lendas gregas de Hércules, que era um semideus (ou
herói) ou seja filho de um deus com uma mortal, os deuses hebreus algumas vezes
também tinham filhos com humanos: "Os filhos de Deus viram que as filhas
dos homens eram agradáveis, e tomaram como esposas todas que escolheram . . . e
eles despojaram filhos para eles, os mesmos podiam tornar-se os homens que
foram na Antigüidade, homens de renome". (Gênesis 6:2-4)
["The sons of God saw the daughters of men that
they were fair, and they took them wives of all they chose . . . and they bare
children to them, the same became mighty men which were of old, men of
renown."] ["Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram
belas, escolheram esposas entre elas . . . quando os filhos de Deus se uniam às
filhas dos homens e elas geravam filhos. Estes são heróis, tão afamados nos
tempos antigos."]
Hoje, os historiadores
bíblicos chegaram a conclusão de que o judaísmo foi em uma época uma religião
politeísta, até que os sacerdotes do deus da tempestade, Yahweh
[Jeová/Javé/Iavé], conquistassem poder político e religioso suficientes para
declarar que seu deus não era somente o deus mais poderoso, mas era na verdade o
único. (Veja também)
Os problemas de tradução da
Bíblia se complicam pelo fato de que várias versões diferentes dos eventos
bíblicos estão presentes nos textos, sendo que cada uma destas versões parecem
ter vindo de uma fonte diferente. Há duas versões diferentes do relato da
Criação, por exemplo, uma em Gênesis 1:1 - 2:3 e a outra em Gênesis 2:4-25. Há
três versões distintas dos Dez Mandamentos, em Êxodo 20:2-17, Êxodo 34:1-27 e Deuteronômio
5:6-21. Estudiosos da Bíblia concluíram que o Pentateuco não foi escrito por
uma única pessoa (e nenhum trecho dele foi escrito, como tradicionalmente
sustentado, por Moisés). Ao invés, a evidência lingüística e arqueológica
(incluindo os famosos Manuscritos do Mar Morto) indicam que os relatos da
Bíblia existiram somente como tradição oral por centenas de anos antes de serem
escritos, e que existem pelo menos quatro fontes distintas para o texto do
Antigo Testamento, conhecidas como a fonte Jeovísta (J), a fonte
Elohista (E), a fonte Sacerdotal (S) e a fonte Deuteronomista (D),
com cada seção escrita em épocas diferentes. Todas estas fontes diferentes
foram editadas e reunidas em sua forma final por uma ou várias pessoas
desconhecidas chamadas de o Redator, que provavelmente realizou esta tarefa ao
redor do ano
Acredita-se que a fonte
J é a mais antiga, e que provavelmente viveu no século X a.C. durante a
época em que Salomão era o Rei de Israel (960-
A fonte Elohista
(assim chamada pelo hábito de se referir a Deus como "Elohim", ou
"O Senhor", de acordo com a lei religiosa então em vigor que proibia
o uso do nome de Deus) viveu cerca de 100 anos após J. Acredita-se que
ele viveu na parte norte do reino de Israel, e diferente de J foi pouco
compassivo para com a monarquia israelense (como era grande parte do norte na
época). Alguns estudiosos acreditam que E foi um sacerdote
anti-monárquico perante ao altar do Santuário. A fonte E escreveu partes
do Gênesis e Êxodo, mas aparentemente não escreveu sua versão da criação. Se
ele a escreveu, ela não foi incluída na compilação final daquilo que conhecemos
como Bíblia.
A fonte Deuteronomista,
como o nome indica, escreveu boa parte do livro bíblico do Deuteronômio. Os
materiais deuteronômicos apareceram pela primeira vez no ano de
A fonte Sacerdotal
data da queda de Jerusalém por Nabucodonosor em
É da fonte Sacerdotal que
temos o primeiro capítulo do Gênesis, o qual, ainda que seja o primeiro da
Bíblia, foi na realidade uma das últimas partes do Antigo Testamento a ser
escrita. A versão Sacerdotal do relato da Criação, que vai do Gênesis 1:1 até
Gênesis 2:3, apresenta uma ênfase totalmente diferente da versão J,
encontrada de Gênesis 2:4 até 2:25. O J salta por sobre os detalhes, por
assim dizer, e, sem qualquer cronologia explicita ou explicações, simplesmente
declara que Deus criou os céus e a terra e colocou Adão ali, feito a sua
imagem. A fonte Sacerdotal, entretanto, traz detalhes consideráveis sobre como e
quando Deus criou o sol, a lua e as estrelas.
Havia uma forte razão
teológica para isto, do ponto de vista dos sacerdotes. Enquanto os hebreus
estavam sendo mantidos no cativeiro da Babilônia, os sacerdotes de Israel
estavam (justificadamente) temerosos de que eles se afastassem de suas próprias
tradições religiosas e adotassem as teologias babilônicas que os envolviam. A
teologia babilônica, diferente da israelense, era politeísta, na qual o sol, a
lua, e as estrelas não eram apenas objetos, mas eles próprios eram deuses, e
eram adorados como deuses -- por isso o grande esforço que os sacerdotes
tiveram para descrever a criação dos corpos celestes por Jeová. A mensagem
teológica era clara -- o sol e a lua não eram deuses, e não deveriam ser
adorados como tal, uma vez que eles mesmos foram criados pelo único deus,
Jeová. Aqueles que tentam considerar esta descrição como uma verdade histórica
literal estão cegos em relação a mensagem teológica que ela simboliza. Para os
autores do Gênesis, não importava como Jeová criou o universo -- tudo o
que importava era que ele fez, e que ele fez isso sozinho.
É claro que algum grau de
contato intercultural era inevitável, e algumas partes do texto sacerdotal, de
fato, trazem afinidades inequívocas com certos mitos e lendas babilônicos. As
enormes idades dadas aos patriarcas bíblicos no livro do Gênesis, por exemplo,
(se diz que alguns dos anciões bíblicos viveram várias centenas de anos) são
refletidas nas tradições babilônicas e suméricas que igualavam a idade com a sabedoria,
de modo que se atribuía postumamente uma grande idade aos líderes antigos de
acordo com sua sabedoria e honra -- quanto mais poderosos e honrados fossem,
mais antigos (e assim mais sábios) se dizia que eles fossem. A lista sumérica
de reis, por exemplo, que descreve os feitos de vários líderes antigos, dá para
alguns destes heróis vários milhares de anos de idade. Não se toma como literal
o número de anos que haviam vivido, mas como uma medida de sua glória e honra.
A versão sacerdotal do mito
da criação no capítulo um do Gênesis, além disso, traz uma série de afinidades
com o épico babilônico Enuma Elish, um poema com cerca de 1000 versos que fora
encontrado nas ruínas da biblioteca do rei Assurbanipal na cidade de Ninive.
Este poema foi datado entre 2000 e
Paralelos também podem ser
vistos entre o livro do Gênesis e a lenda épica babilônica do Gilgamesh,
escrita por volta do ano
Problemas similares de
autoria também surgem no Novo Testamento. Ainda que a tradição popular sustente
que os Evangelhos foram escritos pelos discípulos Mateus, Marcos, Lucas e João,
na verdade nenhum dos quatro Evangelhos foi escrito por alguém que tenha
realmente conhecido Cristo, ou que tenha visto quaisquer dos eventos que
descreve como de primeira mão. Os mais antigo dos quatro evangelhos, Marcos,
foi escrito por volta do ano 70 d.C., aproximadamente quarenta anos após a
morte de Cristo, por uma pessoa que, segundo estudiosos da Bíblia, não parece
ter recebido uma educação de alto nível e por isso provavelmente não era um
sacerdote. A partir de pistas lingüísticas e históricas, parece que a obra foi
escrita em Roma.
O evangelho de Mateus foi
escrito por volta do ano 80 d.C., por um judeu que provavelmente era um
advogado e que de qualquer forma fora bem educado. Ele pode ter sido um levita.
Exatamente aonde foi escrito é uma questão de certa disputa, porém a cidade de
Antioquia é a candidata favorita. Aparentemente, o autor de Mateus estava
familiarizado com os relatos escritos conhecidos como Marcos, de modo que
muitas das seções de Mateus são repetições quase que palavra por palavra do
livro anterior.
O Evangelho Segundo Lucas
foi escrito apenas alguns anos após o de Mateus. A maior parte dos estudiosos
bíblicos concordam que o evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos foram ambos
escritos pela mesma pessoa, e muitas pistas apontam que os textos foram
escritos por um gentio (não judeu), e mais provavelmente por um médico grego.
Como o autor de Mateus, o escritor de Lucas tivera acesso ao livro anterior de
Marcos, e deixou seções inteiras aproximadamente intactas.
O
Evangelho de João foi terminado por volta do ano 100 d.C. Diferente dos autores
de Mateus e Lucas, o autor de João não parece ter tido qualquer contato com os
textos anteriores. O texto original de João foi escrito em grego, e foi
provavelmente o trabalho de um estudante de alguém que tinha ouvido as palavras
de João, o discípulo. Assim, o livro de João é na melhor das hipóteses um
relato de terceira mão, e, a exemplo dos outros evangelhos, a maior parte das
palavras atribuídas a Cristo provavelmente nunca foram realmente ditas por
ele. (*3)
Os
fundamentalistas, é claro, rejeitam a idéia de uma Bíblia que foi juntada peça
por peça anos após os eventos que descreve, por uma sucessão de pessoas sendo
que cada uma a seu tempo, teve seus motivos para enfatizar as coisas a sua
maneira, porém em cada caso tinha uma mensagem consistente para difundir. Em
seu zelo para tomar cada palavra da Bíblia em sentido literal, os
fundamentalistas esquecem completamente o rico simbolismo teológico que é
encontrado por toda a Bíblia. Muitos dos incidentes descritos na Bíblia, se
tomados como literalmente verdadeiros, retratam a figura de um Deus que
chocaria muitas pessoas. Em Ezequiel 23, por exemplo, Deus é declarado como
tendo filhos de duas prostitutas: (*4)
"A palavra do Senhor
veio novamente a mim, dizendo: 'Filho do homem, havia duas mulheres, as filhas
de uma mesma mãe. E se prostituíram no Egito, praticaram prostituição em sua
juventude; lá seus seios foram pressionados, e os mamilos de sua virgindade
maculados. E seus nomes eram Oolá a mais velha, e Ooliba sua irmã, e elas foram
minhas, e me deram filhos e filhas.'" (Ezequiel
23:1-4)
"The word of the Lord came again unto me, saying: Son of man, there were
two women, the daughters of one mother. And they committed whoredoms in Egypt;
they committed whoredoms in their youth; there were their breasts pressed, and
there they bruised the teats of their virginity. And the names of them were
Aholah the elder, and Aholibah her sister; and they were mine, and they bare
sons and daughters." (Ezekiel 23:1-4)
"A
palavra do Senhor foi me dirigida nestes termos:' Filhos do homem: era uma vez
duas mulheres, filhas de uma mesma mãe. Elas se prostituíram no Egito e se
desonraram ainda jovens. Lá foram apertados os seus peitos, lá foi apalpado o
seu seio virginal. A mais velha chamava-se Oolá, e sua irmã Ooliba;
pertenceram a mim, e me deram filhos e filhas.'" (Ezequiel 23:1-4)
Em Salmos 137:9, Deus
aparentemente sugere que as crianças dos edomitas [ou idumeus] deveriam ser
mortas: "Feliz será ele, que tomará e arremessará teus pequeninos contra
as pedras." ["Happy shall he be, that taketh
and dasheth thy little ones against the stones."] ["Feliz aquele que
se apoderar de teus filhinhos, Para os esmagar contra o rochedo!" (Salmos
136 (Hebr.137):9] Quando
as cidades madianitas foram tomadas por Moisés, Deus o ordenou que matasse
todos os meninos e todas as mulheres que não eram virgens, e que entregasse as
virgens para as tropas: "Agora portanto mate todo varão junto com os
pequenos, e mate toda mulher que tenha conhecido um homem por deitar-se com
ele. Mas todas meninas, que não tenham conhecido um homem por deitar-se com
ele, mantenham-nas vivas para vós." (Números
31:17-18) ["Now therefore kill every male along
the little ones, and kill every woman that hath known man by lying with him. But
all the woman children, that have not known a man by lying with him, keep alive
for yourselves." (Numbers 31:17-18)] ["Ide! Matai todos os filhos
varões e todas as mulheres que tiverem tido comércio com um homem; mas deixai
vivas todas as jovens que não o fizeram." (Números 3:17-18)] Quando
o Faraó se recusou a deixar os hebreus irem embora, Deus respondeu matando todo
primogênito do Egito, mesmo aqueles que não tinham nada a ver com a decisão do
Faraó: "Por volta da meia-noite irei ao centro do Egito, e todos os
primogênitos da terra do Egito deverão morrer, desde o primogênito do Faraó que
se senta ao trono, até o primogênito da serva que está atrás do moinho; e todos
primogênitos das bestas." (Êxodo 11:4-5) ["About midnight I will go out into the midst of Egypt,
and all the firstborn of in the land of Egypt shall die, from the firstborn of
Pharaoh that sitteth upon the throne, even unto the firstborn of the
maidservant that is behind the mill; and all the firstborn of beasts." (Exodus 11:4-5)] ["Moisés
disse: 'Eis o que diz o Senhor: Pela meia-noite passarei através do Egito, e
morrerá todo o primogênito na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que
devia assentar-se no seu trono, até o primogênito do escravo que faz girar a
mó, assim como todo o primogênito dos animais." (Êxodo 11:4-5)] Similarmente,
quando Deus disse a Noé que o mundo estava corrompido e seria destruído, Deus
não age simplesmente matando os corruptos, mas matando todas as coisas vivas
sobre a terra -- mesmo aqueles animais que não poderia ser corruptos de maneira
alguma: "E Deus disse a Noé, O fim de toda carne está vindo perante a mim;
para a terra que está repleta com violência por meio deles; e, eis que os
destruirei com a terra." (Gênesis 6:13) ["And God said unto Noah, The end of all flesh is come
before me; for the earth is filled with violence through them; and, behold, I
will destroy them with the earth." (Genesis 6:13)] ["Então
Deus disse a Noé: 'Eis chegado o fim de toda a criatura diante de mim, pois
eles encheram a terra de violência. Vou exterminá-los juntamente com a
terra.'" (Gênesis 6:13)]
Como bispo episcopal John
Shelby Spong apontou, "A figura de Deus que começou a emergir da Bíblia
não foi para mim nem agradável nem digna de se adorar." (Spong, 1991, pág.
17) Realmente, quem gostaria de adorar um Deus que defende a matança de
crianças inocentes, ou que faz sexo com prostitutas? É claro que tal imagem de
Deus é compreensível quando se percebe que ela vem de uma tribo de guerreiros
nômades que viviam de pilhagens, uma tribo obrigada a lutar num mundo sem lei,
acostumada a imolar cruelmente seus inimigos, reais ou imaginários. Essas
descrições bíblicas nos contam mais a respeito dos que a descrevem, do que
sobre a quem se descreve.
Aqueles que interpretam a
Bíblia de maneira literal têm muitas coisas a explicar. A Bíblia está repleta
de relatos que são contraditórios e mutuamente exclusivos. Posto que os livros
da Bíblia não são o trabalho de uma única pessoa, mas misturas de tradições
orais escritas, relatadas por diversos autores e distanciadas por centenas de
anos, não surpreende que se possa encontrar erros e contradições. Esse é um
problema que somente se defrontam os literalistas que persistem em tomar cada
palavra da Bíblia como inequívoca.
Entre os problemas que uma
interpretação literalista apresenta:
Em Gênesis 35:19, somos
informados que o túmulo de Raquel está em Belém, em Judá: "E Raquel
morreu, e foi sepultada no caminho para Efrata, que é Belém." ["And Rachel died, and was buried on the way to Ephrath, which is
Bethlehem."] ["Raquel expirou e foi sepultada no caminho de Efrata, hoje
Belém."] Porém
em I Samuel 10:2 nos contam algo diferente. Agora, é dito que Raquel foi
sepultada em outro lugar: "O sepulcro de Raquel está na fronteira de
Benjamim em Selsac." ["Rachel's sepulchre on
the border of Benjamin at Zelzhah."] ["(...)juntos
do túmulo de Raquel, na terra de Benjamim, em Selsac."] Então qual
trecho está certo?
Em Gênesis 37:25-28, somos
informados que José foi vendido como escravo por seus irmãos para uma caravana
madianita que passavam, que por sua vez o vendeu para alguns ismaelitas, que
por sua vez o levou para o Egito: "E Judá disse aos seus irmãos, Qual é o
lucro se matarmos nosso irmão, e ocultarmos seu sangue? Venham, e deixe-nos
vendê-lo para os ismaelistas, e não deixemos que nossas mãos caiam sobre ele,
como ele é nosso irmão e nossa carne. E seu irmãos ficaram contentes. Lá então
passou os mercadores madianitas; e eles pararam e tiraram José para fora do
fosso, e venderam José para os ismaelitas por vinte peças de prata, e eles
trouxeram José para o Egito." (Gênesis 37:26-28) ["And Judah said unto his brethren, What profit is it if
we slay our brother, and conceal his blood? Come, and let us sell him to the
Ishmeelites, and let not our hand be upon him, for he is our brother and our
flesh. And his brethren were content. There then passed by Midianites
merchantmen; and they drew and lifted up Joseph out of the pit, and sold Joseph
to the Ishmeelites for twenty pieces of silver, and they brought Joseph into
Egypt." (Genesis 37:26-28)] ["Então Judá disse aos seus irmãos: 'Que
nos aproveita matar nosso irmão e ocultar o seu sangue? Vinde e vendamo-lo aos
ismaelistas. Não levantemos nossas mãos contra ele, pois afinal, é nosso irmão,
nossa carne'. Seus irmãos concordaram. E quando passaram os negociantes
madianitas, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata
aos ismaelistas, que o levaram para o Egito". (Gênesis 37:26-28)] Mas
apenas oito versos a frente nos é dada uma história diferente: "E os
madianitas o venderam para o Egito a Putifar, um funcionário do Faraó e capitão
da guarda." (Gênesis 37:36) ["And
the Midianites sold him into Egypt unto Potiphar, an officer of Pharaoh and
captain of the guard." (Genesis 37:36)] ["Os madianitas
venderam-no a Putifar, no Egito, eunuco do Faraó e chefe da guarda".
(Gênesis 37:36)] Espere um minuto, o que aconteceu com os ismaelitas? Eu
pensei que eles levaram José para o Egito e o venderam?
Em I Samuel 16:1-23, somos
informados sobre a história de como Davi chegou à corte de Saul (e mais tarde
se tornou rei de Israel). De acordo com este relato, Deus diz a Samuel que Davi
será o próximo rei. Pouco depois, o rei Saul perguntou por alguém que soubesse
tocar harpa, e alguém menciona Davi, o filho de Jessé (ou Isaí). Saul
dirigiu-se a ele: "E Davi veio a Saul, e ficou diante dele; e ele o amou
muito, e ele tornou-se seu escudeiro. E Saul mandou dizer a Jessé, 'Deixe Davi,
imploro-te, ficando diante de mim, por ele ter encontrado benevolência
No capítulo seguinte,
entretanto, somos informados sobre uma história completamente diferente de como
Davi veio a fazer parte da corte de Saul -- talvez a história mais famosa da
Bíblia, o conto de Davi e Golias. Agora, somos informados que os três irmãos
mais velhos de Davi uniram-se ao exército de Saul para lutar contra os
filisteus, e que Davi ficou em casa para cuidar das ovelhas (não se menciona
aqui que Davi fora um "escudeiro" do exército de Saul). Quando seu
pai lhe pediu para levar alguns grãos e pães para seus irmãos no campo de Saul,
Davi chegou justamente a tempo de ouvir o desafio de Golias ao exército
israelense, e ele pergunta as pessoas ao seu redor porque alguém simplesmente
não matou Golias. Quando Davi é levado na presença de Saul, este, de acordo com
esse relato, não dá nenhum sinal de que já conhecesse Davi como aquele que
tocou a harpa e que ele "amou muito". Ao invés, Saul diz a ele que
não poderia lutar contra Golias porque ele era apenas um menino.
Então Davi foi e matou
Golias, fazendo com que o rei Saul perguntasse: "De quem é filho esse
jovem?" (I Samuel 17:55). Davi é levado perante Saul, e Saul,
aparentemente não tinha nem idéia de quem era Davi, perguntou novamente,
"filho de quem és tu, jovem?" Davi respondeu, "Eu sou o filho de
Jessé de Belém, teu servo". (I Samuel 17:58) Mas isto não faz o menor
sentido. Como Saul não poderia saber quem era Davi, ou de que ele era o filho
de Jessé, quando um pouco antes ele tinha se encantado pelo mesmo Davi, o
harpista, e suplicou a seu pai Jessé para deixa-lo ficar? Por toda a narrativa
de "Davi e Golias", Saul não dá o menor sinal de que já conhecesse
Davi como seu escudeiro, embora os versos anteriores deixem claro que foi assim
que Saul conheceu Davi. As duas narrativas são mutuamente exclusivas. Ambas não
podem estar corretas.
Estas narrativas diferentes
se tornam compreensíveis quando se percebe que não são relatos de feitos
históricos, mas tradições orais que foram passadas de boca em boca por centenas
de anos antes de serem escritas na Bíblia em diferentes épocas e por diferentes
pessoas. Em um processo de transmissão assim, erros e omissões são inevitáveis.
E apenas se tornam um problema quando alguém tenta encarar estas narrativas
como verdade histórica literal.
A exemplo do Antigo
Testamento, o Novo Testamento também existiu como uma tradição oral por um
longo período de tempo antes de que está tradição fosse escrita. Desse modo não
surpreende que o Novo Testamento também esteja repleto de imprecisões e
inconsistências.
As inconsistências mais
flagrantes (e as mais difíceis para os literalistas explicarem) são encontradas
entre os Evangelhos de Mateus e Lucas. Uma vez que a profecia bíblica
estabelece que o Cristo seria um descendente do rei Davi, ambos os evangelhos
traçam a linhagem de Jesus desde a época de Davi (e anterior). Entretanto,
essas genealogias não são consistentes entre si. Em Mateus 1:16, somos
informados que "Jacó gerou José, que gerou Jesus." Mas em Lucas 3:23,
somos informados sobre algo totalmente diferente: "Heli gerou José, que
gerou Jesus." Para tornar as coisas piores, a linhagem dada por Mateus
1:2-26, traça a genealogia de Cristo desde o filho de Davi, Salomão. Mas a
genealogia dada em Lucas 3:23-38 faz de Cristo um descendente do filho de Davi,
Natã. Ou os ancestrais de Jesus eram recombinantes genéticos, ou a genealogia
de alguém está errada. Além disso, Mateus lista um total de 55 gerações desde o
patriarca Abraão até Jesus, enquanto Lucas lista apenas 40 gerações entre os
dois.
Não se trata aqui de
interpretações diferentes ou concessões teológicas; eles são um simples relato
do que se supõe ser um fato histórico -- o ancestral de Cristo -- e eles não
concordam entre si. O que poderia ser mais simples que nos dizer quem era o avô
de Cristo? Ou de qual antigo príncipe de Israel Jesus descende? Ou quantas
gerações se passaram entre Cristo e seus ancestrais? A nenhuma outra conclusão
se pode chegar exceto de que um destes dois escritores está errado. Ambas linhagens
não podem estar corretas. Isto, é claro, não é um problema quando se percebe
que nenhum destes escritores jamais conheceu Jesus, e tampouco teve acesso a
informação de primeira-mão -- um deles (ou talvez ambos) simplesmente passou
informações erradas. Isto é, entretanto, um problema maior para aqueles que
querem encarar a Bíblia tanto literalmente infalível como acurada
historicamente.
Outras inconsistências
podem ser encontradas entre os quatro evangelistas. Uma vez que o evangelho de
João foi o último livro a ser escrito, e aparentemente foi escrito de maneira
independente dos outros três, não é uma surpresa que possa entrar em
contradição com os outros sobre numerosos pontos. Em João 2:13-17, por exemplo,
a expulsão dos mercadores do templo por Cristo é colocada no início de sua
pregação, logo após ele escolher seus apóstolos. Em todos os outros evangelhos,
este incidente é descrito como acontecido um pouco antes da crucificação
(Mateus 21:12-13, Marcos 11:15-19, e Lucas 19:45-48). O relato de João coloca o
milagre da pescaria como um evento pós-ressurreição: "Era esta já a
terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter
ressuscitado." (João 21:14) Mas Lucas descreve isto como o incidente que
levou Pedro, Tiago e João a unirem-se aos discípulos no início do ministério de
Cristo (Lucas 5:4-7). Mateus 26:17, Marcos 14:12 e Lucas 22:7 todos descrevem a
Última Ceia como acontecendo na Páscoa Judaica -- mas João 13:1-9 descreve como
acontecendo na semana anterior a Páscoa.
Há também inconsistências
entre os outros evangelhos. Mateus, por exemplo, é o único dos evangelistas a
mencionar a miraculosa estrela sobre Belém (Mateus 2:1-2). Em Marcos 10:35-37,
lemos: "Aproximaram-se de Jesus Tiago e João,
filhos de Zebedeu, e disseram-lhe: 'Mestre, queremos que nos concedas tudo o
que te pedirmos.' -- 'Que quereis que vos faça?' -- 'Concede-nos que nos
sentemos na tua glória um à tua direita, e outro à tua esquerda'." Mas em Mateus 20:20-21, há uma versão diferente desta
história: "Nisto, aproximou-se a mãe dos filhos
de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma
súplica. Perguntou-lhe ele: 'Que queres?' Ela respondeu: 'Ordena que estes meus
dois filhos se sentem no teu reino, um à tua direita e outro à tua esquerda'."
Aqui, é a mãe de Tiago e João quem faz este pedido, não os próprios discípulos.
Novamente, nenhuma destas
discrepâncias são perturbadoras se lembrarmos que estas eram tradições orais
que foram passadas por décadas antes de serem escritas. Mas para os
literalistas bíblicos, elas apresentam problemas embaraçosos de consistência.
Ainda mais perturbador para
os fundamentalistas literalistas (bem como para os criacionistas) são aquelas
passagens da Bíblia que lidam diretamente com a história verificável. A Bíblia
é repleta de passagens que simplesmente não são acuradas historicamente. Em
Daniel 1:1, lemos: "No terceiro ano do reinado de Joaquim, rei de Judá,
Nabucodonosor, rei da Babilônia veio sitiar Jerusalém". A partir dos
registros arqueológicos, sabemos que Joaquim iniciou seu reinado no ano
O profeta Ezequiel previu
que Nabucodonosor tomaria a cidade de Tyrus (Tiro) e a saquearia: "Para
isso disse o Senhor teu Deus, eis que, trarei sobre Tiro Nabucodonosor rei da
Babilônia . . . e ele colocará máquinas de guerra contra suas muralhas e com
seus machados romperá suas torres." (Ezequiel
26:7-9) [ "For thus saith the Lord thy God;
Behold, I will bring upon Tyrus Nebuchadnezzer king of Babylon . . . and he
shall set engines of war against thy walls, and with his axes he shall break
down thy towers." (Ezekiel 26:7-9)] ["Eis o que diz o senhor JAVÉ: Do Norte,
mando contra Tiro Nabucodonosor, rei da Babilônia, o rei dos reis, (...)
Quebrará teus muros a golpes de aríetes, com seus engenhos demolirá tuas
torres." (Ezequiel 26:7-9)] Nabucodonosor, entretanto, nunca conquistou Tiro -- ele foi
forçado a abandonar o cerco após quinze anos de luta. (Asimov, 1968, pág. 588)
Ezequiel também previu que o Egito seria conquistado e convertido num reino
subordinado: "E eu trarei novamente o cativeiro do Egito, e farei que eles
retornem a terra de Patros, para a terra de sua morada; e eles deverão formar
lá uma base do reino." (Ezequiel 29:14) ["And I will bring again the captivity of Egypt, and
will cause them to return into the land of Pathros, into the land of their
habitation; and they shall be there a base kingdom". (Ezekiel 29:14)] ["Trarei os
egípcios cativos e os restabelecerei na terra de Patros, donde são originários;
eles aí constituirão um pequeno reino". (Ezequiel 29:14)]. Isto nunca aconteceu.
Há também muitos incidentes
descritos na Bíblia que não têm nenhuma confirmação fora dela -- e alguns
destes são as histórias mais famosas da Bíblia. Em Daniel 4:30, somos
informados que Nabucodonosor foi afligido por Deus quando não se arrependeu de
seu caminho pecaminoso "Ele foi expulso dentre os homens, e pastou ervas
como os bois, e seu corpo foi molhado pelo orvalho do céu, até que seus cabelos
crescessem como penas de águia, e suas unhas como garras de aves". Tivesse
tal aflição repentinamente ocorrido com o rei da Babilônia, o homem mais
poderoso da terra na época, alguém certamente teria noticiado, mas não há
nenhuma menção de tal incidente em qualquer registro babilônico, sumérico ou
qualquer outro registro do Oriente Médio antigo. Similarmente, quando o sol
parou por ordem de Deus para que o exército israelense de Josué pudesse
terminar de massacrar os amorreus (Josué 10:12-14), como um evento tão
extraordinário teria passado despercebido por pessoas por todo o globo, já que
não há nenhum registro escrito de um evento assim fora da Bíblia -- nem uma
palavra dos astrônomos maias ou dos astrólogos chineses ou de qualquer outro.
Do mesmo modo, não há o
menor registro em todos os volumosos registros hieroglíficos egípcios de
qualquer das pragas bíblicas (certamente os egípcios teriam noticiados se todos
seus primogênitos tivessem morrido -- teria dizimado o país e deixado o Egito
um estado estraçalhado e fácil de ser conquistado). Não há nenhum registro fora
da Bíblia de um ajudante estrangeiro do Faraó chamado José, e nenhum registro
sumérico, babilônico ou assírio da destruição repentina das cidades de Sodoma e
Gomorra.
No Novo Testamento, Mateus
descreve a "matança dos inocentes", em que Herodes tenta eliminar o
menino Jesus matando todo menino com menos de três anos de idade. Não há nenhum
registro de um incidente assim em qualquer registro histórico judeu, romano ou
grego desse período, e esta matança sequer é mencionada em qualquer um dos
outros livros da Bíblia. Faz, entretanto, um notável paralelo com a história
bíblica anterior do nascimento de Moisés (onde outro líder tenta eliminar um
rival profetizado matando crianças -- e que também não tem nenhuma referência
fora da Bíblia). A maioria dos estudiosos bíblicos acreditam que Mateus plagiou
a história de Herodes e a baseou no relato de Moisés.
Para os
"cientistas" da criação, é claro, o ponto crucial é a credibilidade
bíblica conforme se aplica as questões científicas, particularmente aos eventos
descritos no Gênesis. Mas aqui, também, a Bíblia demonstra não ser mais
sofisticada do que os simples criadores de cabras que a escreveram. Em I Reis
7:23, somos informados sobre um grande vaso que fora construído pelo rei
Salomão: "E ele fez também o mar de bronze, que tinha dez côvados de uma
borda a outra, perfeitamente redondo, e de altura de cinco côvados; sua
circunferência media-se com um fio de trinta côvados". (I Reis 7:23) A razão do diâmetro de um círculo para sua
circunferência é conhecido como "pi", e pi tem um valor numérico de
aproximadamente 3,15. Assim, a circunferência de um vaso circular de dez
côvados de diâmetro ("de uma borda a outra") teria medido cerca de
31,5 côvados, não 30 como descrito aqui (e se o vaso não fosse circular, a
circunferência teria sido ainda maior). Ou as medidas citadas aqui estão
incorretas, ou a Bíblia está alegando que o valor de pi é 3,0. Isto, é claro, é
uma questão trivial para a maioria de nós -- os escritores não sofisticados da
Bíblia, que não tinham nem idéia do que o "pi" até mesmo
representava, simplesmente deram as medidas erradas. Mas para os literalistas
bíblicos, que vêem a Bíblia como historicamente e cientificamente correta, é
inexplicável. Eles preferem não falar sobre o fato de que a Bíblia dá o valor
errado para pi.
Em Levítico 11:13-19, como
parte das restrições dietéticas impostas aos judeus, vemos outro exemplo da
visão simples que os autores bíblicos tinham sobre o mundo natural: "E
estas são as quais vós tereis em abominação entre as aves; elas não deverão ser
comidas, elas são uma abominação: a águia, e a águia-pescadora, e o abutre, e o
milhafre e a sua raça; todo corvo e sua raça; E a coruja, e o falcão da noite,
e o cuco, e o falcão e sua raça, e a pequena coruja, e o cormorão, e a grande
coruja, e o cisne, e o pelicano e a águia gier, e a cegonha, a garça e
sua raça, e o abibe, e o morcego." [
"And these are they which ye shall have in abomination among the fowls;
they shall not be eaten, they are an abomination: the eagle, and the ossifrage,
and the osprey, and the vulture, and the kite after his kind; every raven after
his kind; And the owl, and the night hawk, and the cuckow, and the hawk after
his kind, and the little owl, and the cormorant, and the great owl, and the
swan, and the pelican, and the gier eagle, and the stork, the heron after her
kind, and the lapwing, and the bat."] ["Entre as aves, eis as que tereis em
abominação e de cuja carne não comereis, porque é uma abominação: a águia, o
falcão e o abutre, o milhafre e toda variedade de falcão, toda espécie de
corvo, a avestruz, a andorinha, a gaivota e toda espécie de gavião, o mocho, a
coruja e o íbis, o cisne, o pelicano, o abutre e a cegonha, toda variedade de
garça, a poupa e o morcego".] Morcegos, é claro, não são aves, mas para os membros simples
das tribos hebraicas, qualquer coisa com duas asas que voasse era "uma
ave". Mais adiante nestas mesmas leis dietéticas, a Bíblia faz uma
surpreendente asserção de que alguns insetos tinha somente quatro patas:
"Ainda destes podereis vós comer de todo ser rastejante voador que
caminham sobre todas as quatro, as quais têm patas além de seus pés, para
saltar com eles sobre a terra; o gafanhoto e sua raça, e o gafanhoto careca e
sua raça, e o besouro e sua raça. Porém todos os outros seres rastejantes voadores
que têm quatro patas, deverá ser uma abominação para vós". (Levítico
11:21-23) [ "Even of these may ye eat of every
flying creeping thing that goes upon all four, which have legs above their
feet, to leap withal upon the earth; the locust after his kind, and the bald
locust after his kind, and the beetle after his kind, and the grasshopper after
his kind. But all other flying creeping things which have four feet, shall be
an abomination unto you." (Leviticus 11:21-23)] [Todavia, entre os
insetos voláteis que andam sobre quatro pés podereis comer aqueles que, além de
seus quatro pés, têm pernas para saltar em cima da terra. Eis, pois, os que
podereis comer: toda espécie de gafanhotos, assim como as variedades de solam,
de hargol e de hagab. Qualquer outro volátil que tem quatro pés vos será uma
abominação". (Levítico 11:21-23)] Gafanhotos e besouros certamente são "seres rastejantes
voadores", mas eles nunca tiveram apenas quatro patas.
Outro
lugar onde a Bíblia faz uma confusão com a ciência é em Gênesis 30:31-43. Nesta
história, somos informados que é dada a Jacó a oportunidade de pegar toda a
criação de Labão que fosse manchada ou listrada e que ficasse com eles. Para
assegurar uma maior quantidade, somos informados que Jacó sabiamente pegou
varetas de salgueiro e as entalhou em um padrão de listras e manchas, "E
ele colocou as varetas que havia amontoado perante o rebanho nas calhas nos
bebedouros quando o rebanho veio beber, que eles deveriam conceber quando
viessem beber. E o rebanho concebeu perante as varetas, e pariram gados
riscados, manchados e malhados" (Gênesis 30:38-39). [ "And he set the rods which he had piled before the flocks in the
gutters in the watering troughs when the flocks came to drink, that they should
conceive when they came to drink. And the flocks conceived before the rods, and
brought forth cattle ringstraked, speckled and spotted." (Genesis 30:38-39)] ["Colocou as varas
assim preparadas sob os olhos das ovelhas, nas pias e nos bebedouros onde
vinham beber. Indo a beber, entravam em calor. E como entrassem no calor do
coito diante dessas varas, concebiam cordeiros riscados, manchados e
malhados" (Gênesis 30:38-39)]. Em outras palavras, Jacó, por permitir que o rebanho visse
varetas machadas durante o ato do acasalamento, foi capaz de induzi-los a
produzir crias malhadas, o que é tão impossível quanto produzir bebês humanos
listrados por fazer sexo na frente de um barber pole (*5). Hoje,
com nosso conhecimento de genética, sabemos que esta história bíblica é um
absurdo científico, mas para os antigos pastores hebreus, tal
"mágica" era amplamente aceita e não era questionada.
Na verdade, a Bíblia aceita
completamente a visão primitiva destas antigas sociedades pastoris. Admitia-se
que a terra era chata, com o sol girando ao seu redor e com as estrelas fixas
no "firmamento", um teto sólido que cobria a terra. Acima do
firmamento estava o Céu. Foi por causa desta visão de mundo que os antigos hebreus
não viam nenhum problema com a história de Josué ordenando o sol para que
parrasse no céu (o sol, é claro, não se move ao redor da terra). Similarmente,
estes versos bíblicos que indicavam que a terra era imóvel e chata não foram
questionados até a época de Galileu. Em Daniel 4:7-8, somos informados de uma
visão em que Daniel vê "no meio da região, uma árvore de alto porte. Esta
árvore cresceu, era vigorosa. O cimo tocava o céu, era avistada até nos confins
da terra." Numa esfera como o planeta
Terra, é impossível ver "até nos confins da terra" de qualquer lado,
não importa quão alto. Mas, uma vez que os escritores da Bíblia acreditavam que
o mundo era chato, isto não representava nenhum problema. Similarmente, em
Salmos 104:5, o poeta escreve que Deus "assentaste a fundações da terra em
bases sólidas que são eternamente inabaláveis". A terra, é claro,
definitivamente se move -- e uma esfera não tem nenhuma "fundação".
Mas, uma vez que o salmista acreditava que a terra era chata e presa a um ponto
fixo, isto também não apresentava problema algum.
Em duas ocasiões, a bíblia
deixa completamente o reino da realidade, e assegura que os humanos e os
animais conversaram em uma linguagem falada. Em Números 22, encontramos a
história de Balaão, que estava montado em uma jumenta quando a estrada foi
bloqueada por um anjo que somente a jumenta podia ver. Quando a jumenta se
recusou a seguir
O mais famoso de todos os
animais falantes é a serpente do Gênesis, que se supõem conversou com a Eva: "A serpente era o mais astuto de todos os animais dos
campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: 'É verdade que Deus
vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?' A mulher respondeu-lhe:
'Podemos comer do fruto dar árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está
no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que
não morrais'. --'Oh, não! -- tornou a serpente -- vós não morrereis! Mas Deus
bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis
deuses, conhecedores do bem e do mal.'" (Gênesis 3:1-4)
Cobras, é claro, não têm cordas vocais ou outros pré-requisitos físicos para falar. Literalistas bíblicos freqüentemente tentam atenuar este absurdo postulando que a serpente era na verdade o Satanás em pessoa. Isto, entretanto, é minando pelo fato de que Deus amaldiçoou a serpente por tentar Eva, e faz a serpente rastejar sobre seu ventre como punição (uma explicação cristã do porquê as cobras não têm pernas.). Se de fato foi Satanás tentando Eva, e não realmente uma cobra falante, então por que Deus amaldiçoou a pobre inocente serpente por algo que não poderia ter feito? Como Clarence Darrow mostrou durante o julgamento de Scopes, a totalidade da história da "serpente" é impossível de ser aceitar como uma descrição literal de um evento real. Durante seu exame cruzado de William Jennings Bryan com respeito a exatidão literal da Bíblia, Darrow perguntou a Bryan, "'Andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida.' Você acha que é por isso que a serpente é compelida a se rastejar sobre seu ventre?" Bryan respondeu, "Eu acredito que sim." Darrow perguntou, "Você tem alguma idéia de como a serpente era antes daquela época?" Bryan respondeu, "Não senhor." Darrow perguntou, "Você sabe se ela caminhava sobre sua cauda ou não?" Bryan, para a gargalhada da mutidão, respondeu, "Não senhor, não tenho como saber." (Wills, 1990, p.23)
Um outro item no Gênesis faz uma leitura literal impossível. De acordo com a escala de tempo criacionista, Deus criou o universo em seis dias, como registrado no Gênesis. Após cada ato da criação, a Bíblia entoa, "Sobreveio a tarde e depois a manhã foi o primeiro dia." Um "dia", é claro, é medido pela revolução da terra ao redor do sol. Mas, de acordo com o Gênesis, o sol não foi criado até o quarto "dia", e o "dia" não era dividido da "noite" até então. (Gênesis 1:14). Ou seja, a palavra "dia" podia ser aplicada ao período de tempo antes disso?
Os criacionistas da terra antiga, é claro, têm postulado que os "dias" mencionados no Gênesis são na verdade indeterminadamente longos períodos de tempo (a palavra hebraica traduzida como "dia" é yom, o que pode significar "um período de tempo" bem como um "dia"). Assumindo que cada "dia" era realmente diversas centenas de milhões de anos, entretanto (como os criacionistas da era-dia fazem) somente suscita outros problemas. De acordo com o relato bíblico, as plantas foram criadas no terceiro "dia", ao passo que o sol não fora criado até o quarto "dia". Se cada "dia" fosse realmente um longo período de milhões de anos, teria sido impossível para as plantas terem existido antes do sol ter sido criado, uma vez que as plantas são dependentes da fotossíntese para a sobrevivência.
É simplesmente impossível considerar o
relato do Gênesis
de maneira literal, da mesma maneira que é impossível aceitar o relato
do Dilúvio ou qualquer outra parte da
Bíblia como infalível. A Bíblia não é um livro de História ou um texto
científico -- é um livro espiritual que lida com questões teológicas e
espirituais. Tentar forçar a Bíblia numa direção de infalibilidade
literal
sobre questões
históricas e científicas é distorcê-la e rebaixá-la, e tais tentativas
inevitavelmente transformam o cristianismo num saco de risos. Da mesma
forma
que nos lembramos com desdém as tentativas da Inquisição em interromper
a
disseminação da noção herética de Galileu de que a terra se movia ao
redor do
sol, assim também os futuros historiadores verão as tentativas dos
literalistas bíblicos em interromper o ensino da evolução como uma
"heresia".
Publicado em: 20/04/01
Tradução: Gilson C. Santos
Texto original em: http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Hangar/2437/literal.htm
N.T.:
*1: Procurei colocar junto com uma tradução livre o trecho original em inglês da versão do Rei James e o mesmo trecho da Bíblia católica Ave Maria, mas somente em trechos onde a diferença era maior. Conforme este padrão de cores. O trecho da Bíblia Ave Maria serve mais para ilustrar a diferença apontada no segundo parágrafo. Obviamente existem muitas outras versões de Bíblia em português, que o leitor pode usar para comparar com o texto. [voltar]
*2: Sarion: nome fenício do monte Hermon. [voltar]
*3: Alguns estudiosos, como Robin Pane Fox, acreditam com base em várias análises do texto que o evangelho de João possa ter sido escrito por alguém que realmente conviveu com Jesus, talvez o discípulo amado. Apesar do texto ter sido escrito muito tempo após da morte de Cristo, quando seu autor já era um ancião e ter acrescentando trechos que jamais poderia saber mesmo para uma testemunha ocular dos fatos, como o que Jesus pensava a respeito de certas passagens, ou que pessoas em outros lugares conversavam. Também o autor estava bem a vontade para mudar o texto conforme o que já havia acontecido, fazendo assim "cumprir" as escrituras. Mas ainda que o Evangelho Segundo João tenha sido escrito por uma testemunha ocular dos fatos, Fox também acredita que a maior parte das palavras atribuídas a Jesus, provavelmente jamais foram ditas por ele, como é o caso do Sermão da Montanha ou as famosas "Aquele que não tiver um pecado que atire a primeira pedra". Veja a referência para o livro de Fox na seção de livros. [voltar]
*4: Conforme a nota da Bíblia Ave Maria, Oolá seria uma alusão a cidade de Samaria, e Ooliba a Jerusalém. Um bom exemplo de um texto que se lido de maneira literal diria que Deus teve filhos com prostitutas, mas na verdade o texto é uma metáfora a duas cidades de Israel. [voltar]
*5: poste listrado em espiral (vermelho, azul e branco) à porta das barbearias (símbolo da profissão de barbeiro). [voltar]