A Diferença entre Hahnemann e Darwin
Em contraste com a biologia
evolutiva, a homeopatia é um sistema fechado, dogmático de regras fixas. Além
disso, sua crença central é uma tautologia irracional que carece de qualquer
base verdadeira.
U. Kutschera encontra-se no Instituto de Biologia, Universidade de Kassel, Heinrich-Plett-Strasse 40, D-34109 Kassel, Alemanha. Contato através de kut@uni-kassel.de.
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Uma reportagem especial publicada
recentemente na Nature argumenta que
o famoso Princípio de Similaridades de Hahnemann (“semelhante cura
semelhante”), que é a base no tratamento de doenças com agentes extremamente
diluídos, vigorosamente sacudidos (as chamadas “potências”), é uma
pseudociência (Giles, 2007)). Embora essa conclusão seja verdadeira, temo que
esse trabalho, que pode ser visto como uma seqüência de um excelente artigo de
revisão sobre homeopatia e física publicado dez anos atrás na Skeptical
Inquirer (Park, 1997), não irá convencer todos os leitores da natureza
anti-científica dessa medicina alternativa. Entretanto, penso que os seguintes
argumentos adicionais devem persuadir todas as pessoas de mente aberta de que a
homeopatia é, na verdade, uma charlatanice do século dezoito.
Primeiro, a alegação dos homeopatas de que
remédios extremamente diluídos têm um efeito independente da crença do paciente
e do praticante foi refutada. Esse argumento é baseado na premissa de que as
várias potências podem ser distinguidas uma das outras. Em um estudo
quantitativo, foi demonstrado que duas potências específicas, denominadas Natrium muriaticum
Segundo, os homeopatas normalmente
argumentam que o princípio de Hahnemann foi corroborado pelo tratamento de
animais com remédios homeopáticos. Nesses ensaios, o paciente não humano nem
imagina estar recebendo qualquer remédio, desse modo o efeito placebo pode ser
descartado. Mas um artigo recente sobre homeopatia na medicina veterinária
mostrou que essa alegação popular é falsa (Taylor, 2005).
Terceiro, a homeopatia moderna baseia-se na
suposição de que os remédios retêm atividade fisiológica mesmo quando diluídos
além do número de Avogadro (veja figura 1), o que significa que não resta
nenhuma molécula da substância ativa (“potências altas”, i.e., são “soluções
sem soluto”). Essa “memória da água” ou
hipótese de “imprint”, que foi discutida
O número (ou constante) de
Avogadro é o número de “entidades” (átomos ou moléculas) em um mol (NA =
6,02214179 x 1023 mol-1). Se uma solução armazenada de 1
mol3L-1 de substância (por exemplo, sacarose) é diluída 24 vezes por um fator
de 1/10, nenhum soluto restará nessa “solução diluída” (i.e., “D24” é água
pura).

Figura 1. Ilustração do número de Avogadro
(NA). Uma quantidade definida de sacarose (342,3g)[sucrose] é dissolvida em
água pura para formar um volume de
Finalmente, deve ser notado que os
fundamentos da homeopatia não mudaram muito nos últimos duzentos anos. Se
Hahnemann fosse submetido a um teste sobre homeopatia hoje em dia, ele não
deveria ter nenhum problema para responder a maioria das perguntas
corretamente. Entretanto, Charles Darwin não teria nenhuma chance de passar em
um exame de biologia evolutiva de hoje, porque nossa moderna teoria sintética
da evolução biológica se desenvolveu muito além de seu livro clássico
Princípios da Descendência com Modificação pela Seleção Natural. Termos como
genótipo, fenótipo, mutações de linhas germinativas, etc., eram desconhecidos
por Darwin, que usava métodos de sua época. Apesar dessas restrições, ele fez
surgirem muitas questões novas e abertas e finalmente tornou-se o fundador de
uma nova agenda de pesquisa e disciplina científica (Kutschera and Niklas
2004).

Figura 2. Séries de Diluição. Uma solução concentrada é diluída em série por um fator de 10. Após três etapas, o número de partículas por volume de água cai de 100 para zero (valor médio). De acordo com um dos dogmas da homeopatia clássica, essa “solução sem solutos” é capaz de supostamente exercer um efeito fisiológico positivo sobre os corpos de animais, humanos e plantas.
Em contraste com a biologia evolutiva, a homeopatia é um sistema fechado, dogmático de regras fixas. Além disso, a crença central da homeopatia, “Nada, dissolvido em água, é mais eficaz que água em que nada é dissolvido”, é uma tautologia irracional que carece de qualquer base real (veja a figura 2). A homeopatia deve ser considerada como uma fé estática, quase religiosa que não possui lugar algum dentro de qualquer currículo científico.
Referências
Cowan,
M.L., B.D. Bruner, N. Huse, J.R. Dwyer, B. Chugh, E.T.J. Nibbering, T.
Elsaesser, and R.J.D. Miller. 2005. Ultrafast memory loss and energy
redistribution in the hydrogen bond network of liquid H2O. Nature 434: 199-02.
Giles, J.
2007. Degrees in homeopathy slated as unscientific. Nature 446: 352-53.
Kutschera,
U., and K.J. Niklas. 2004. The modern theory of biological evolution: an
expanded synthesis. Naturwissenschaften 91: 255-76.
Park,
R.L. 1997. Alternative medicine and the laws of physics. Skeptical Inquirer 21
(5): 24-28.
Roberts,
T.D.M. 1989. Homeopathic test. Nature 342: 350.
Tradução de Gilson Cirino. Artigo publicado originalmente na Skeptical Inquirer, traduzido e publicado neste site com a autorização do autor.